quinta-feira, 3 de março de 2011

O macaco, a macaca, o pôr do sol, o garçon do sim, o tempo imprevisível e a centopéia, ó centopéia...




Eu sempre acabo querendo ser mais frequente aqui, mas não consigo. Coisas acontecem todos os dias, mas como eu sou prolixo pra chuchu, acho que nada tem o potencial "literário" pra render um post, ou então que eu vou encher o meu saco e o de todo mundo postando... até que acontece outra que você tem que compartilhar... aliás, nos últimos dois dias foi um festival...

Tive que passar os dois últimos dias em Brasília... trabalho... cliente importante e bem legal, mas aquilo é o faroeste caboclo. Enfim, fazer o que, entuba e vai. Vai de Gol, que TAM é um inferno, eu consegui estar reservado (e obviamente perder) todos os vôos da TAM nos últimos meses, daqueles de quebra-quebra em aeroporto e tudo. Aliás, consegui sair no jornal em dois quebra-quebras diferentes no mesmo dia - na ida (atrasada) pra Minas, ainda no Galeão, e na volta, 11 da noite, mais atrasado ainda e "sem previsão, senhor" em Confins (nome perfeito praquele c* de mundo).

Enfim, acordei, tomei banho, entuchei uma camisa social num compartimento da minha mochila que eu nem sabia que tinha (minha mochila tem até quarto do pânico, se alguém vier me sequestrar eu posso passar 3 dias ali dentro com ar, água, energia elétrica e um banquinho caipira), e pego o carro. Ir de carro pro aeroporto pra uma viagem de 2 dias é mais barato do que taxi, e a única forma de garantir que 3 pessoas vão conseguir pegar o vôo das 7:30 - é ir pra porta da casa deles às 6:30 e buzinar até acordar o padre e o leiteiro.

Peguei o carro, um zumbi de tão grogue, e ligo o rádio. Às seis e pouco da manhã, as rádios ainda não são "as rádios", não começaram a programação normal. Aqueles programas de "naftalina", good times e etc, geralmente começam as 7, então 6:30 é terra de Marlboro no seu dial. Tirando a Oi FM, tudo coisa esquisita. E botei na Transamérica (acho). E o locutor tava encerrando um programa que devia ser de auto-ajuda, e ia contar um conto do Paulo Coelho... que vou tentar, tentar, mas não vou conseguir, escrever rapidinho a seguir...

"Um dia, o macaco estava com a macaca no galho, vendo o pôr do sol. Aí, a macaca pergunta ao macaco..."

Pausa. Acho engraçadíssimo esses contos que tem umas frases ou situações completamente surreais, tipo uma macaca e um macaco vendo o pôr do sol, trepados num galho, super jipe-jipe-nheco-nheco-no-coqueiro, e de repente a macaca pergunta "AO" macaco. Não pergunta pro macaco, mas pergunta "AO" macaco. Acho uma coisa muito fina, mais fina que palito Gina... sigamos...

"A macaca pergunta AO macaco: Macaco, por que o céu muda de cor no pôr do sol?

No que o macaco retruca (pausa rápida: adoro "o macaco retruca" este conto é cheio de coisas assim. É o estilo Paulo Coelho. Situações imbecis, que não dizem nada, mas que retrucam, se deparam, me mim comigo, te ti contigo, um delírio da mesóclise...) "macaca, pare de buscar razão para tudo... o céu muda de cor simplesmente porque muda... não perca seu tempo perguntando essas coisas, simplesmente aprecie a beleza que a Natureza nos oferece...."

Poderia ter acabado aí, e seria uma moral imbecil e pronto. Digna do Paulo Coelho. Mas ele é soberbo... quer ser um La Fontaine do terceiro milênio, e continua o conto, pra desespero da macaca e minha êxtase no volante no céu lusco-fusco de um dia chuvoso as seis da manhã.

"A macaca, indignada, responde ao macaco - Macaco, deixe de ser primitivo (note a picardia do Paulo Coelho - macaco, deixe de ser primitivo.. esse homem merece o fardão...). Tudo tem uma razão, seja lógico e veja que deve haver uma explicação para tudo!!"

Aí é que vem a parte mais surreal. O macaco olha para baixo, e vê que está passando uma centopéia. Acho centopéia um dos bichos mais carismático do mundo das fábulas. O macaco vira pra centopéia e pergunta.

"Centopéia, ó centopéia (sic), como é que você consegue andar com tanta beleza e harmonia com tantas patas?"

Beleza e harmonia no andar da centopéia eu já tava às gargalhadas, devia ser o único ser rinte do Rio a essa hora.

"Ah, macaco, é fácil.. primeiro, eu movo as patas da frente, e depois... não... não, espera... não, não é isso. Primeiro eu inflexiono os músculos de trás, em seguida... não, também não. Para conseguir andar, eu primeiro movo o lado direito, e em seguida.. não, também não..."

E a centopéia se enrolou toda, tropeçava, não conseguia explicar como conseguia andar com tantas patas. No que o macaco, triunfante, volta à macaca e diz "Está vendo, macaca? Algumas coisas não podem ser explicadas. Elas simplesmente são..."

Segundo momento para acabar de forma imbecilóide uma história que só pode ser caricata e surreal. Mas não. Ele continua. Quando você pensa que a macaca fez aquela cara de Marlene no final de piada em Zorra Total (fuó, fuó, fuó, fuóóóóó...), segue o locutor.

"E a centopéia responde: e eu, macaco, como faço agora que não consigo mais andar???"

Me borrei de rir. Quando a primeira passageira entrou no carro, não me aguentei, tava às gargalhadas... tive que contar pra ela, foi hilário. Deu seis e meia, começou o programa de flashback.

Embarcamos, taxiamos, atrasamos, chegamos, fomos ao cliente, yadda-yadda-yadda, fomos jantar. O cliente sugere um restaurante árabe. Estou indo pro Marrocos em duas semanas, vamos lá fazer um boot camp. Fomos.

Chegamos lá, olhei o cardápio, não como carne vermelha, mas sempre tem falafel e eu adoro falafel. Folheia cardápio, folheia cardápio, e nada de achar faláfel. Não é possível. Tem humus, pega uma bola e frita, não acredito. Não tinha. Chamei o garçon, que já tinha se embananado mortalmente no pedido das bebidas - sabe quando você está já com a quarta pessoa da mesa pedindo uma coisa, ele vira pra primeira pessoa que pediu um guaraná e aponta a caneta e repete lentamente "uma coca-cola normal com gelo e limão, certo?". Pegamos o garçon do "sim"... aquele que não sabe o que está falando, mas é incapaz de dizer "não".

Perguntei pra ele "vem cá, você tem falafel?"

Longa pausa. Deu pra centopéia reaprender a andar, subir na árvore e dar uma coça na macaca. O garçon volta, e, incapaz de dizer não, "retruca": "senhor, se está no cardápio, nós temos. Temos tudo o que tem no cardápio". E eu respondo "é porque vocês têm tudo que dá pra fazer com grão de bico, mas não tem falafel", "senhor, do cardápio fazemos tudo, se está ali..." nessa reticência ele chamou um outro, eu pergunto "tem falafel", o outro "não" e vai embora. Eles trabalham em duplinha, esse último era o garçon do "não".

E o bicho se enrola todo, a noite toda. Mas não diz um não. Na hora do cafézinho, trazem os cafés com três pratinhos: um cheio de sachês de açúcar e adoçante, outro com aquela casquinha de laranja com açúcar, e outro com uns carocinhos. Celeuma e perturbação na mesa, o que seriam os carocinhos, eu botei cinco reais que era caroço de laranja (ah, vai saber), quando uma amiga fala "é cardamomo"... whodahell... chamamos um garçon, veio o do "sim", e perguntamos, "O que é isso?", ele fica olhando, a Márcia fala "é cardamomo?", ele "sim, é cardamomisson (sic)"... ela segue "isso é pra comer junto com o café?", e ele "sim, pode-se comer sim...", ela "com caroço, ou tira o caroço?", ele "sim, pode ser... pode ser com o caroço sim..." ela "dentro do café?", ele "sim, pode ser também...."

Surreal... se "pode-se comer sim", então pode-se não comer, é pra fazer o quê com aquilo, diabo? "com caroço ou sem caroço", e ele "sim, pode ser com caroço..." então deve ser sem o caroço? Por que não diz? Várias piadinhas previsíveis sobre como ele poderia ser um político, já que não diz nada e já está em Brasília mesmo, e fim da história...

Dia seguinte, a mesma amiga vai pra recepção do hotel com uma blusa, mas sem casaco, e apesar do calor do cerrado que fazia na noite anterior, amanheceu cinzento e frio. Ela pergunta na recepção "oi, por favor, será que durante o dia vai esquentar, vocês sabem a previsão do tempo?"

O recepcionista responde "senhora, a previsão é imprevisível (sic)... pode chover, pode fazer sol, pode esquentar, pode ficar como está, pode chover..." Carai.. o cara devia ser irmão do garçon do "sim". Eu já tava rolando no chão.

E o pior é que o cara acertou. No mesmo dia começou frio, depois fez sol, depois choveu uma tempestade, depois ficou tempo bunda cinza como estava de manhã.

Realmente Brasília é imprevisível.

Obrigado, Paulo Coelho. Eu sei que foi você que me deu estes dois dias maravilhosos, e que me ensinou a não tentar explicar essas situações, macaca, ó macaca, e simplesmente apreciar a desarmonia dessa gente que se está no cardápio fazemos senhor, que pode ser com casca, que pode botar no café, que pode chover, que pode fazer sol, que pode ficar como está... sem reclamar, tentar entender ou argumentar...

E força, centopéia! Se embolar aí, te recomendo um Shiatsu de quebrar os ossos na Praça da Paz.

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